EDUCAÇÃO NOS DIAS DE HOJE

Tem índio na universidade!

Marcos Moreira Paulino

Você pode ter lido esse título e ter pensado: índios na universidade? Como assim?

Pois é, em 2001, foi promulgada a primeira lei que prevê acesso diferenciado a indígenas e, a partir daí, outras leis ou resoluções internas de muitas universidades públicas brasileiras também determinaram políticas diferenciadas de acesso (chamadas de “ações afirmativas” ou “cotas para índios”). Só pra termos uma ideia, hoje existem mais de 5.000 indígenas universitários no Brasil.
Em média, 5.000.000 de índios habitavam “Pindorama” antes da chegada de Cabral. Hoje, essa população resume-se a pouco mais de 700.00 pessoas. Tudo o que aconteceu com as populações indígenas do Brasil no passado precisa ser lembrado, mas  falemos do presente: a população indígena está crescendo, há mais índios no Ensino Fundamental e no Médio.

Hoje, eles compõem mais de 200 etnias, existem 180 línguas e muita, muita diversidade. Por isso, quando utilizamos a palavra índio, não nos referimos àquele personagem genérico, presente nos livros didáticos desde que nós, professores, éramos alunos: um homem com pena na cabeça, protetor da natureza, morando na aldeia, munido com seu arco e flecha, pois essas são imagens que não dão conta da grande riqueza que esses povos têm, de toda a sua história, de todas as suas diferenças.

Infelizmente, além das imagens românticas do índio, temos algumas declaradamente ofensivas. Ainda resistem ideias de que ele é preguiçoso, selvagem, traiçoeiro. Tais informações, além de denunciarem preconceito, mostram a intolerância com que se tratam outras culturas, outros saberes, outras formas de vida.

Os índios universitários são considerados por seus povos e familiares como vencedores; afinal de contas, chegaram a um espaço onde poucos chegam (independentemente da etnia): a universidade. Mas estar na universidade para eles não é nada fácil: além das diferenças entre o modo de vida da aldeia e da cidade (onde ficam os campi), o estudante indígena, muitas vezes adolescente, encontra na universidade um mundo de novos valores, com os quais não se identifica.

Muitas escolas indígenas das séries iniciais, após a Constituição de 1988, têm elementos da cultura dos povos em seus currículos, muitas contratam professores índios e priorizam em seus projetos político-pedagógicos a interculturalidade e o bilinguismo. Essas são as escolas que valorizam sua cultura e sua língua, localizadas dentro de aldeias, com professores índios como eles.

Só que após o quinto ano, começa o problema: esse estudante tem que ir para uma escola em outra cidade, com todos os professores não índios e sob outros valores. E o “caminho” só vai ficando mais difícil, até a universidade, mas muitos deles resistem.

Para nós, educadores, trabalhar a temática indígena em sala não é nada difícil, principalmente se relacionada ao cotidiano dos alunos; certamente alguma rua, alguma cidade próxima ou até mesmo alguém da sala de aula tenha um nome indígena; alguma dança ou festividade de sua região pode ter influências indígenas; alguma comida que os alunos apreciem pode ser um exemplo da culinária dos índios.  A diversidade e riqueza que os indígenas sempre nos ofereceram está por todo lugar – cabe a nós tirá-las da invisibilidade e darmos a eles os créditos que merecem.

Professor de Ciências do Instituto Pio XI, ex-aluno da instituição (1983-1992). Professor da rede estadual do Rio de Janeiro. Mestre em educação pela UFRJ. Esse ensaio foi inspirado na dissertação “Povos indígenas e Ações Afirmativas: O caso do Paraná”, defendida pelo autor em 2008.

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