EDUCAÇÃO NOS DIAS DE HOJE

A educação do olhar como aliada nas aulas de interpretação textual

 

A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. (Paulo Freire – A importância do ato de ler.)

Um dos maiores percalços na resolução de qualquer prova, independentemente da disciplina, é a interpretação do que se pede.  Erroneamente, muitos estudantes pensam que a solução é decorar fórmulas, classificações, terminologias, mas não atentam para o fato de que tais estratégias são vazias de resultados se o comando da questão não for entendido.

De modo semelhante, questões avaliativas de interpretação textual transformam-se em frutos ocos se o discente não captura a intenção do texto, as entrelinhas, a contextualização para resolver as questões propostas. Em outras palavras, se ele não exercita o letramento.

Pertenço a uma geração que achava que a interpretação textual era cobrada em provas para que ninguém tirasse nota máxima em Língua Portuguesa. Bimestre a bimestre, lá estava essa parte do que se media na disciplina, e nada se fazia em benefício desses apavorados e insatisfeitos alunos, em socorro às mazelas nascidas a cada etapa. O famoso “chute” é consequência natural na vida de muitos discentes porque se torna uma solução, ainda que muito torta e errada, para que eles se livrem do texto, não importando resolvê-lo.

Felizmente, as gerações mais jovens contam, em sala de aula, com a educação pelo olhar para ler o mundo. Nessas condições, cabe ao professor — e não me refiro somente ao docente de idiomas — a tarefa de despertar em cada um dos alunos essa nova forma de enxergar o que o texto oferece, porque no time da Educação, não existe gol individual, particular; todas as conquistas são do grupo, e professor de Língua Portuguesa não é salvador da pátria, mas um dos integrantes da equipe que realiza, mesmo que a duras penas, o milagre da instauração do conhecimento.

Não é possível a estudante nenhum gostar de um saber que não conhece, não domina ou é fruto de um fracasso escolar. A partir do momento em que se aprende que ler um texto não tem mistério nem sofrimento, que nós é quem o deciframos, esse olhar passa a ter mais campo de visão, mais proficiência.

Uma boa solução para esse impasse é trabalhar, por exemplo, as mensagens das propagandas televisivas. Rapidamente, pode-se discutir com os alunos o que o texto publicitário quis representar sobre o mundo, o que veio sugerido e como devemos receber tal mensagem. De um modo geral, eles gostam dessa atividade, muitos se lembram de outros textos de mesma natureza, chegando, inclusive, a compartilhar — verbo tão em voga hoje em dia — essas informações com a família ou com os amigos.

Pode-se, de igual modo agradável, trabalhar as tirinhas, muito frequentes hoje em dia, inclusive em grandes concursos, as quais nada mais são do que a releitura das fábulas, mostrando, de igual modo, valores e saberes que foram, por algum motivo, subvertidos indevidamente e que, por isso, precisam ser repensados e retificados.

Fazer tudo isso dá trabalho, inegavelmente; mas em que época o homem foi capaz de construir o conhecimento calcado na indolência? Nunca, evidentemente. Que educador que se preze deseja passar pela vida de seus discípulos como nuvem passageira? Creio que nenhum.

Reclamar que as notas estão baixas, que nossos alunos erram sempre, que não entendem como deveriam os textos apresentados é fácil, cômodo e muito desleal para com eles. O que se precisa fazer é revestir o olhar de cada um deles, tornando o texto matéria de sedução, não de condenação.

As novas tecnologias podem e devem ser utilizadas como nossas parceiras nessa desafiadora tarefa, desde que haja parcimônia e sabedoria, pois os resultados serão doces e longevos frutos, e o antigo reclamante tornar-se-á um astuto e realizado navegante nas malhas do texto, fazendo deste um tecido prenhe de múltiplas significações e soluções.

Por fim, cabe-nos uma pergunta: que profissionais queremos para educar nossos netos e como devem ser aqueles que cuidarão de nossa velhice? Analfabetos do que os circundam ou profícuos leitores de um mundo que além de vasto é rico, excitante e generoso?

Daisy Nogueira
Mestre em Letras
Professora de Língua Portuguesa do Ensino Médio
Instituto Pio XI e Colégio Naval


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